O dia seguinte foi meu primeiro dia no trabalho novo - estou estagiando no Belcanto, um restaurante muito bom no Chiado, em Lisboa - voltei de comboio (br: trem) para casa. Duas fileiras à minha frente, percebi que havia uma mulher com deficiência visual. E voltei a lembrar da aula no dia anterior. Como seria a vida daquela pessoa?
Eu fui descer na Parede, onde moro, e a moça desceu também. A mulher que a acompanhava disse-lhe: Eu não desço nesta esta estação. E então eu disse: Eu descerei, acompanho-te.
E desci com ela, auxiliei-a dizendo o que havia e o que não havia no caminho. Isto é incomum para mim, não estava acostumada com isso. Então fiquei com receio de parecer que achava a moça "burra" ou "incapacitada". De qualquer forma, ela disse-me:
- Fico por aqui, moro deste lado da estação.
- Nossa, eu nunca fui para este lado da Parede. É fixe?
- É sim, bem calmo.
- Acho que vou acompanhar-te. Está uma linda noite, bem agradável, e aproveito e conheço um pouco mais o outro lado da Parede.
Ela explicou como seria o caminho: pedras, iria estreitar a calçada, teriam passadeiras (br: faixa de pedestres) e no segundo poste de madeira haveria uma passadeira onde cruzaríamos a rua. E fomos. E a conversa foi mais ou menos assim:
-Eu acho incrível a habilidade de se localizar com a bengala, pelos sons, texturas... Eu sou uma perdida total... enxergando me perco absurdos, imagina sem enxergar
- Eu estou acostumada, desde pequena meus pais me incentivaram a ser independente.
- Você nasceu sem visão?
- Eu nunca enxerguei cores. Até os vinte anos tinha noção de luz e escuro, o que dava-me muito jeito (ajudava-me) na orientação. Comecei a perder essa visão de luz em um olho e há 4 anos perdi do outro olho.
E íamos atravessar a passadeira quando passou o comboio ao lado. Ela me parou e disse:
-Espero o comboio passar senão não escuto o movimento dos carros na rua. Depois da terceira vivenda, passamos ao outro lado da rua.
Eu ia falar-lhe que a terceira vivenda tinha portão verde. Mas não dava. Era um portão comprido: não dava. Era um portão enrugado. Check-point!
E haviam carros estacionados nas calçadas, e ela batia as canelas sempre. Eu avisava-a, mas mesmo assim às vezes não dava tempo. Carros não podem ficar na calçada. E eu nunca tinha visto por este ponto.
Então ela me disse que estava em Lisboa fazendo um curso de massagista. Que sempre gostou da área da saúde. "Se visse, seria médica", disse-me. "Mas não sou licenciada nisto, tirei direito".
Curso de massagista? Sem ver??! DIREITO?!?! Caramba meu!!! Ela tirou direito sem enxergar! Haja livros em braille!!! Fiquei boquiaberta com o esforço e perseverança desta pessoa. E mais boquiaberta ainda pelo fato dela mudar de profissão e estar feliz com isso. UAU.
Ah, detalhe: ela não era da Parede. Estava lá por causa do curso em Lisboa. Ela é de Coimbra. Ou seja, teve que se adaptar a um novo ambiente completamente diferente para cursar o que pretende.
Ao chegarmos numa rotatória, ela disse-me que havia uma rua em forma de S. E eu não encontrei, porque a rua para mim tinha forma de gota.
- Ah, essa daqui, parece uma gota!
- Gota? Eu tenho só a impressão abstrata do que é uma gota...não sei dizer como é uma gota. O S eu sei, porque aprendi, mas a gota não.
E então tive uma jogada de mestre: - Conheces coxinha? (aqui é muito famosa a coxinha ou coxa de galinha)
- Sim, conheço!
-Então, já comeu uma?
-Sim.
-É a mesma coisa. A gota tem forma de coxinha. E é essa a forma da rotunda (rotatória).
- Ora, agora sei como é uma gota!
Então chegamos ao lar dela, que pelo que me pareceu é o lar de muitos deficientes visuais.
Disse-lhe tchau e agradeci pela belíssima noite.
E vi que no outro lado da parede há coisas que nem imaginava. Há a simples percepção de que parar carros na calçada pode prejudicar e muito a vida de um deficiente visual. Há a dificuldade em tornar nosso cérebro mais inteligente para descrever coisas sem usar o visual. Há a habilidade de se conectar com outros sentidos e viver constantemente ligado à eles. Há a dificuldade que as vezes colocamos em nossas vidas mesmo tendo facilidades. E há pessoas que nos ensinam, em 15 minutos, o que poderia levar uma vida para VER.
E ao olhar o ceu estrelado pensei: Gratidão. Gratidão por este momento. Por este momento ter ocorrido logo após a aula de ontem. Gratidão por poder ver as estrelas. E gratidão pelos 15 minutos mais sábios de muito tempo.
Esse foi um vídeo que vimos na aula para mostrar a importância da luz e sombra na visão. A bola de basquete não muda de posição, o que muda é somente a sombra. Parece pouco, mas não é.
Sem comentários:
Enviar um comentário