quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Encontro com Fernando Pessoa

Eu não moro em Lisboa, não tenho as manhas lisboetas e conheço pouco de lá, porém como qualquer amante de Fernando António Nogueira Pessoa, um lindo poeta lisboeta que iluminou o mundo com seus poemas de 1888 a 1935, eu sou apaixonada pelo Chiado.
Antes de ontem, desço eu da estação Baixa-Chiado de Metro e dou de cara com este senhor, sentado, com um ar sério e pensativo, como se estivesse aqui e em outros vários mundos, no mundo de Álvaro de Campos, de Ricardo Reis, de Alberto Caeiro, de Bernardo Soares, de Fernando Pessoa... Ele está, coincidentemente, à uma mesa numa cafeteria chamada "A Brasileira". Pronto, já sinto que ele está a minha espera.




Na verdade, eu estava a espera de uma entrevista em um restaurante, sentada ao pé da igreja olhando para este homem com ar intrigante, este homem de bronze por fora, mas de ouro por dentro.
E então, por mais que eu quisesse me aproximar dele, via certa "frieza" em seu olhar. Eu tinha 15 minutos de espera para a entrevista. Meu coração quase pulava do peito, quando fui abordada por 3 miúdos (br: crianças), cheios de energia e queridos, que me perguntam:
-És portuguesa?
-Não, mas falo português.
-Gostas de Fernando Pessoa?
-AMO.
-Fixe! Para Português, temos que gravar pessoas declamando poemas do Fernando Pessoa, mas está difícil de conseguir, ninguém quer auxiliar... poderias?
-Claro!! Com certeza! Seria uma honra...mas pode ser com sotaque brasileiro?!
- Sem problemas!
E a miúda tinha 3 poemas à mão. Quais seriam estes poemas? Já os conheço? Qual será que lerei? De qual heterônimo será? Não sou muito fã do jeito engenheiro do Ricardo Reis... tenho minhas discrepâncias com Álvaro de Campos...

E então a miúda me entrega este:

O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 

Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 

Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender ... 

O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... 
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema II"

Nos 15 minutos que tinha, após a gravação haviam passado menos que 3. Para mim, haviam passado duas horas. Por quê? Não sei. Porque amo Fernando Pessoa. Porque no dia anterior, ao caminhar pelas ruas da Parede (a vila onde moro), tentei esquematizar o porquê amamos tais coisas..Por que tal pessoa te intriga? Por que o amor acontece assim? E então, vem o destino com a sua linda lufada de vento em minha cara, e me dá as respostas transcritas pelo poeta lisboeta.

"Porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe por que ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar"

Depois deste lindo momento, vou-me à tal entrevista.
Chego lá e dizem-me para esperar no lounge do restaurante. Vejo uma parede cheia de livros com alguns buracos. Tento decifrar os buracos, o porquê deles.  E então fico de frente para a tal estante de livros.


 Pois, lá estava ele novamente. Ao meu encontro. E eu fui, inteira. E grande. Agora é esperar.

Grata, Fernando António Nogueira Pessoa, por alegrar meu dia neste belíssimo encontro.


 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

coentros para que te quero

Dois meses atrás eu nunca me preocuparia se há ou não coentros no meu frigorífico (br: geladeira). Hoje, já não vivo sem. Coentros, você Elisa?? Pois é. Essa terra faz milagres.
O coentro está para os portugueses assim como o cheiro verde está para os brasileiros. Todo mundo tem em casa, em todo prato vai. Sempre dá uma corzinha e alegra o paladar.
No Brasil, o coentro ainda vive na ditadura: ame-o ou deixe-o. Usualmente os que amam ou vem do Norte/Nordeste do Brasil ou tem família de lá. Já os que odeiam são muitos. Nem o cheiro suportam. Uma pena, passariam fome aqui...hihihi

Aqui há arroz de coentros, que acompanha o leitão à bairrada. Amêijoas à bulhão pato, o prato que eu mais aprecio, vai coentros. O meu almoço, farfalle com cogumelos, foi com coentro. Peixes e mariscos (br: frutos do mar) também sempre tem coentros.

Ouvi até uma terrível piada, que hei de reproduzir aqui  (proibida para menores de 18 anos):
-Qual é a erva mais educada da cozinha?
- O coentro, pois sempre pede para entrar: cu, entro?

Terrível, ora pois.

Dissecando o coentro:

A nossa educada erva é uma das ervas mais antigas a serem utilizadas. Todavia, era mais usado seu fruto que as folhas, e ambos tem sabores totalmente diferentes.
O sabor é uma associação entre o paladar e o aroma (vou falar disso com mais propriedade em outra postagem). E o aroma é composto de compostos aromáticos (linda frase) que, entre eles existe o linalol. Este lindinho é classificado como um aroma floral, e está presente em ninguém mais que: lavanda, cardamomo, canela, anis, louro e até baunilha. Lindo não?

Outra coisa divertida: o coentro é considerado da família das cenouras :)
A feliz família das Apiaceae conta com: cominho, dill, salsinha, anis, aipo, ervadoce, coentro e, claro, cenouras.

Mais um fato (pt: facto) interessante: há estudos que indiquem que pessoas que não gostam de coentros os sentem com um sabor adstringente, como sabão,  ou pior, sabor de maria fedida (devido a aldeídos). E que isso pode ser genético...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Chegando na Terrinha

A ideia foi da minha mãe, mas eu gostei. Eu tive um blog por poucos meses, onde escrevia coisas minhas, só para rir um pouco... e desfiz. Agora voltei com este. Mesmo nome, conteúdo diferente.

Aurorando é uma homenagem ao meu nome, Elisa Aurora, ao nascer de uma nova vida dentro desta minha vida, novas oportunidades, novas experiências e novos encantamentos. Há um mês mudei para Portugal para estudar Artes Culinárias e aprender mais desta maravilhosa área que é a cozinha. E aqui vou compartilhar com vocês algumas coisas que tenho vivido...
Ah, o gerúndio é uma homenagem ao português brasileiro que vive de gerúndio...e cá em Portugal não se usa! Tás a perceber?

;)

Quando cheguei a primeira coisa que percebi foi que eu precisava ter estudado mais na Faculdade de Letras, porque até agora, com um mês de Portugal, ainda sofro para entender umas coisas. As palavras tem significados completamente diferentes...e quando tem o mesmo significado, são faladas de forma completamente diferente. Resumindo: a coisa que eu mais escuto é: Não te percebo (=não te entendo). E eu me sentia ligeiramente retardada quando não "percebia" e tinha que perguntar três vezes a mesma coisa. Agora já melhorou, mais ainda é osso.

Outra coisa, minha hipérboles numéricas não fazem sucesso aqui. A minha mania de dizer "nossa, chorei 3 litros" ou  "fiz tal coisa 200 vezes" vai por água abaixo quando alguém me pergunta:  "Mas 200 vezes é muito...não te cansaste?" Póin.

Ora pois...aqui vamos nós!

P.S.: ninguém fala ora pois aqui. é como eles acham que brasileiro fala oxalá isso aconteça.