Antes de ontem, desço eu da estação Baixa-Chiado de Metro e dou de cara com este senhor, sentado, com um ar sério e pensativo, como se estivesse aqui e em outros vários mundos, no mundo de Álvaro de Campos, de Ricardo Reis, de Alberto Caeiro, de Bernardo Soares, de Fernando Pessoa... Ele está, coincidentemente, à uma mesa numa cafeteria chamada "A Brasileira". Pronto, já sinto que ele está a minha espera.
Na verdade, eu estava a espera de uma entrevista em um restaurante, sentada ao pé da igreja olhando para este homem com ar intrigante, este homem de bronze por fora, mas de ouro por dentro.
E então, por mais que eu quisesse me aproximar dele, via certa "frieza" em seu olhar. Eu tinha 15 minutos de espera para a entrevista. Meu coração quase pulava do peito, quando fui abordada por 3 miúdos (br: crianças), cheios de energia e queridos, que me perguntam:
-És portuguesa?
-Não, mas falo português.
-Gostas de Fernando Pessoa?
-AMO.
-Fixe! Para Português, temos que gravar pessoas declamando poemas do Fernando Pessoa, mas está difícil de conseguir, ninguém quer auxiliar... poderias?
-Claro!! Com certeza! Seria uma honra...mas pode ser com sotaque brasileiro?!
- Sem problemas!
E a miúda tinha 3 poemas à mão. Quais seriam estes poemas? Já os conheço? Qual será que lerei? De qual heterônimo será? Não sou muito fã do jeito engenheiro do Ricardo Reis... tenho minhas discrepâncias com Álvaro de Campos...
E então a miúda me entrega este:
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema II"
Nos 15 minutos que tinha, após a gravação haviam passado menos que 3. Para mim, haviam passado duas horas. Por quê? Não sei. Porque amo Fernando Pessoa. Porque no dia anterior, ao caminhar pelas ruas da Parede (a vila onde moro), tentei esquematizar o porquê amamos tais coisas..Por que tal pessoa te intriga? Por que o amor acontece assim? E então, vem o destino com a sua linda lufada de vento em minha cara, e me dá as respostas transcritas pelo poeta lisboeta.
"Porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe por que ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar"
Depois deste lindo momento, vou-me à tal entrevista.
Chego lá e dizem-me para esperar no lounge do restaurante. Vejo uma parede cheia de livros com alguns buracos. Tento decifrar os buracos, o porquê deles. E então fico de frente para a tal estante de livros.
Grata, Fernando António Nogueira Pessoa, por alegrar meu dia neste belíssimo encontro.


