quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O outro lado da parede

Dia 12 deste mês tive aula de fisiologia do gosto e vimos os cinco sentidos, como funciona cada um e sua importância nas artes culinárias. O que mais chamou a atenção da sala foi a visão, como seria viver sem a visão. Às vezes acordamos no meio da noite e para achar a porta do quarto ou o interruptor, passamos por uma ínfima ideia do que seria não ter visão. E dependemos totalmente da nossa memória, de onde estão as paredes, os móveis, para não nos machucarmos ou seguirmos o caminho correto. Agora imagine uma vida sem ver cores. Sem ver o por-do-sol, sem ver a cara das pessoas...  Voltei para a casa a pensar nisso..
O dia seguinte foi meu primeiro dia no trabalho novo - estou estagiando no Belcanto, um restaurante muito bom no Chiado, em Lisboa - voltei de comboio (br: trem) para casa. Duas fileiras à minha frente, percebi que havia uma mulher com deficiência visual. E voltei a lembrar da aula no dia anterior. Como seria a vida daquela pessoa?
Eu fui descer na Parede, onde moro, e a moça desceu também. A mulher que a acompanhava disse-lhe: Eu não desço nesta esta estação. E então eu disse: Eu descerei, acompanho-te.
E desci com ela, auxiliei-a dizendo o que havia e o que não havia no caminho. Isto é incomum para mim, não estava acostumada com isso. Então fiquei com receio de parecer que achava a moça "burra" ou "incapacitada". De qualquer forma, ela disse-me:
- Fico por aqui, moro deste lado da estação.
- Nossa, eu nunca fui para este lado da Parede. É fixe?
- É sim, bem calmo.
- Acho que vou acompanhar-te. Está uma linda noite, bem agradável, e aproveito e conheço um pouco mais o outro lado da Parede.
Ela explicou como seria o caminho: pedras, iria estreitar a calçada, teriam passadeiras (br: faixa de pedestres) e no segundo poste de madeira haveria uma passadeira onde cruzaríamos a rua. E fomos. E a conversa foi mais ou menos assim:
-Eu acho incrível a habilidade de se localizar com a bengala, pelos sons, texturas... Eu sou uma perdida total... enxergando me perco absurdos, imagina sem enxergar
- Eu estou acostumada, desde pequena meus pais me incentivaram a ser independente.
- Você nasceu sem visão?
- Eu nunca enxerguei cores. Até os vinte anos tinha noção de luz e escuro, o que dava-me muito jeito (ajudava-me) na orientação. Comecei a perder essa visão de luz em um olho e há 4 anos perdi do outro olho.
E íamos atravessar a passadeira quando passou o comboio ao lado. Ela me parou e disse:
-Espero o comboio passar senão não escuto o movimento dos carros na rua. Depois da terceira vivenda,  passamos ao outro lado da rua.
Eu ia falar-lhe que a terceira vivenda tinha portão verde. Mas não dava. Era um portão comprido: não dava. Era um portão enrugado. Check-point!
E haviam carros estacionados nas calçadas, e ela batia as canelas sempre. Eu avisava-a, mas mesmo assim às vezes não dava tempo. Carros não podem ficar na calçada. E eu nunca tinha visto por este ponto.
Então ela me disse que estava em Lisboa fazendo um curso de massagista. Que sempre gostou da área da saúde. "Se visse, seria médica", disse-me. "Mas não sou licenciada nisto, tirei direito".
Curso de massagista? Sem ver??!  DIREITO?!?! Caramba meu!!! Ela tirou direito sem enxergar! Haja livros em braille!!! Fiquei boquiaberta com o esforço e perseverança desta pessoa. E mais boquiaberta ainda pelo fato dela mudar de profissão e estar feliz com isso. UAU.
Ah, detalhe: ela não era da Parede. Estava lá por causa do  curso em Lisboa. Ela é de Coimbra. Ou seja, teve que se adaptar a um novo ambiente completamente diferente para cursar o que pretende.
Ao chegarmos numa rotatória, ela disse-me que havia uma rua em forma de S. E eu não encontrei, porque a rua para mim tinha forma de gota.
- Ah, essa daqui, parece uma gota!
- Gota? Eu tenho só a impressão abstrata do que é uma gota...não sei dizer como é uma gota. O S eu sei, porque aprendi, mas a gota não.
E então tive uma jogada de mestre: - Conheces coxinha? (aqui é muito famosa a coxinha ou coxa de galinha)
- Sim, conheço!
-Então, já comeu uma?
-Sim.
-É a mesma coisa. A gota tem forma de coxinha. E é essa a forma da rotunda (rotatória).
- Ora, agora sei como é uma gota!
Então chegamos ao lar dela, que pelo que me pareceu é o lar de muitos deficientes visuais.
Disse-lhe tchau e agradeci pela belíssima noite.
E vi que no outro lado da parede há coisas que nem imaginava. Há a simples percepção de que parar carros na calçada pode prejudicar e muito a vida de um deficiente visual. Há a dificuldade em tornar nosso cérebro mais inteligente para descrever coisas sem usar o visual. Há a habilidade de se conectar com outros sentidos e viver constantemente ligado à eles. Há a dificuldade que as vezes colocamos em nossas vidas mesmo tendo facilidades. E há pessoas que nos ensinam, em 15 minutos, o que poderia levar uma vida para VER.

E ao olhar o ceu estrelado pensei: Gratidão. Gratidão por este momento. Por este momento ter ocorrido logo após a aula de ontem. Gratidão por poder ver as estrelas. E gratidão pelos 15 minutos mais sábios de muito tempo.

Esse foi um vídeo que vimos na aula para mostrar a importância da luz e sombra na visão. A bola de basquete não muda de posição, o que muda é  somente a sombra. Parece pouco, mas não é.




quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Encontro com Fernando Pessoa

Eu não moro em Lisboa, não tenho as manhas lisboetas e conheço pouco de lá, porém como qualquer amante de Fernando António Nogueira Pessoa, um lindo poeta lisboeta que iluminou o mundo com seus poemas de 1888 a 1935, eu sou apaixonada pelo Chiado.
Antes de ontem, desço eu da estação Baixa-Chiado de Metro e dou de cara com este senhor, sentado, com um ar sério e pensativo, como se estivesse aqui e em outros vários mundos, no mundo de Álvaro de Campos, de Ricardo Reis, de Alberto Caeiro, de Bernardo Soares, de Fernando Pessoa... Ele está, coincidentemente, à uma mesa numa cafeteria chamada "A Brasileira". Pronto, já sinto que ele está a minha espera.




Na verdade, eu estava a espera de uma entrevista em um restaurante, sentada ao pé da igreja olhando para este homem com ar intrigante, este homem de bronze por fora, mas de ouro por dentro.
E então, por mais que eu quisesse me aproximar dele, via certa "frieza" em seu olhar. Eu tinha 15 minutos de espera para a entrevista. Meu coração quase pulava do peito, quando fui abordada por 3 miúdos (br: crianças), cheios de energia e queridos, que me perguntam:
-És portuguesa?
-Não, mas falo português.
-Gostas de Fernando Pessoa?
-AMO.
-Fixe! Para Português, temos que gravar pessoas declamando poemas do Fernando Pessoa, mas está difícil de conseguir, ninguém quer auxiliar... poderias?
-Claro!! Com certeza! Seria uma honra...mas pode ser com sotaque brasileiro?!
- Sem problemas!
E a miúda tinha 3 poemas à mão. Quais seriam estes poemas? Já os conheço? Qual será que lerei? De qual heterônimo será? Não sou muito fã do jeito engenheiro do Ricardo Reis... tenho minhas discrepâncias com Álvaro de Campos...

E então a miúda me entrega este:

O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 

Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 

Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender ... 

O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... 
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema II"

Nos 15 minutos que tinha, após a gravação haviam passado menos que 3. Para mim, haviam passado duas horas. Por quê? Não sei. Porque amo Fernando Pessoa. Porque no dia anterior, ao caminhar pelas ruas da Parede (a vila onde moro), tentei esquematizar o porquê amamos tais coisas..Por que tal pessoa te intriga? Por que o amor acontece assim? E então, vem o destino com a sua linda lufada de vento em minha cara, e me dá as respostas transcritas pelo poeta lisboeta.

"Porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe por que ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar"

Depois deste lindo momento, vou-me à tal entrevista.
Chego lá e dizem-me para esperar no lounge do restaurante. Vejo uma parede cheia de livros com alguns buracos. Tento decifrar os buracos, o porquê deles.  E então fico de frente para a tal estante de livros.


 Pois, lá estava ele novamente. Ao meu encontro. E eu fui, inteira. E grande. Agora é esperar.

Grata, Fernando António Nogueira Pessoa, por alegrar meu dia neste belíssimo encontro.


 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

coentros para que te quero

Dois meses atrás eu nunca me preocuparia se há ou não coentros no meu frigorífico (br: geladeira). Hoje, já não vivo sem. Coentros, você Elisa?? Pois é. Essa terra faz milagres.
O coentro está para os portugueses assim como o cheiro verde está para os brasileiros. Todo mundo tem em casa, em todo prato vai. Sempre dá uma corzinha e alegra o paladar.
No Brasil, o coentro ainda vive na ditadura: ame-o ou deixe-o. Usualmente os que amam ou vem do Norte/Nordeste do Brasil ou tem família de lá. Já os que odeiam são muitos. Nem o cheiro suportam. Uma pena, passariam fome aqui...hihihi

Aqui há arroz de coentros, que acompanha o leitão à bairrada. Amêijoas à bulhão pato, o prato que eu mais aprecio, vai coentros. O meu almoço, farfalle com cogumelos, foi com coentro. Peixes e mariscos (br: frutos do mar) também sempre tem coentros.

Ouvi até uma terrível piada, que hei de reproduzir aqui  (proibida para menores de 18 anos):
-Qual é a erva mais educada da cozinha?
- O coentro, pois sempre pede para entrar: cu, entro?

Terrível, ora pois.

Dissecando o coentro:

A nossa educada erva é uma das ervas mais antigas a serem utilizadas. Todavia, era mais usado seu fruto que as folhas, e ambos tem sabores totalmente diferentes.
O sabor é uma associação entre o paladar e o aroma (vou falar disso com mais propriedade em outra postagem). E o aroma é composto de compostos aromáticos (linda frase) que, entre eles existe o linalol. Este lindinho é classificado como um aroma floral, e está presente em ninguém mais que: lavanda, cardamomo, canela, anis, louro e até baunilha. Lindo não?

Outra coisa divertida: o coentro é considerado da família das cenouras :)
A feliz família das Apiaceae conta com: cominho, dill, salsinha, anis, aipo, ervadoce, coentro e, claro, cenouras.

Mais um fato (pt: facto) interessante: há estudos que indiquem que pessoas que não gostam de coentros os sentem com um sabor adstringente, como sabão,  ou pior, sabor de maria fedida (devido a aldeídos). E que isso pode ser genético...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Chegando na Terrinha

A ideia foi da minha mãe, mas eu gostei. Eu tive um blog por poucos meses, onde escrevia coisas minhas, só para rir um pouco... e desfiz. Agora voltei com este. Mesmo nome, conteúdo diferente.

Aurorando é uma homenagem ao meu nome, Elisa Aurora, ao nascer de uma nova vida dentro desta minha vida, novas oportunidades, novas experiências e novos encantamentos. Há um mês mudei para Portugal para estudar Artes Culinárias e aprender mais desta maravilhosa área que é a cozinha. E aqui vou compartilhar com vocês algumas coisas que tenho vivido...
Ah, o gerúndio é uma homenagem ao português brasileiro que vive de gerúndio...e cá em Portugal não se usa! Tás a perceber?

;)

Quando cheguei a primeira coisa que percebi foi que eu precisava ter estudado mais na Faculdade de Letras, porque até agora, com um mês de Portugal, ainda sofro para entender umas coisas. As palavras tem significados completamente diferentes...e quando tem o mesmo significado, são faladas de forma completamente diferente. Resumindo: a coisa que eu mais escuto é: Não te percebo (=não te entendo). E eu me sentia ligeiramente retardada quando não "percebia" e tinha que perguntar três vezes a mesma coisa. Agora já melhorou, mais ainda é osso.

Outra coisa, minha hipérboles numéricas não fazem sucesso aqui. A minha mania de dizer "nossa, chorei 3 litros" ou  "fiz tal coisa 200 vezes" vai por água abaixo quando alguém me pergunta:  "Mas 200 vezes é muito...não te cansaste?" Póin.

Ora pois...aqui vamos nós!

P.S.: ninguém fala ora pois aqui. é como eles acham que brasileiro fala oxalá isso aconteça.